Entre ausências e recomeços, Pequenas Criaturas constrói um delicado drama familiar
Estrelado por Carolina Dieckmmann, o longa de Anne Pinheiro Guimarães é delicado drama sobre crescimento, afetos e ausências

Nos últimos anos, o cinema brasileiro encontrou diferentes formas de revisitar os anos da ditadura militar e seus desdobramentos. Se Ainda Estou Aqui transformou a ausência em uma ferida aberta, marcada pela violência do Estado, e O Agente Secreto fez da paranoia e da tensão política o motor de um thriller, Pequenas Criaturas segue por um caminho muito mais íntimo e que propõe recomeços.
Ambientado em Brasília em 1986, durante os anos finais do regime e os primeiros passos da redemocratização, o novo longa de Anne Pinheiro Guimarães (Transe) entende que a História pode ser sentida não apenas pelos grandes acontecimentos, mas pelas pequenas mudanças que atravessam o cotidiano. É um filme em que a ausência continua presente, mas se manifesta de forma silenciosa, quase imperceptível, nos espaços vazios, nas relações familiares e nas vidas que tentam seguir em frente.
É nesse contexto que conhecemos Helena (Carolina Dieckmmann, Entre Nós), que se muda para a cidade do planalto central ao lado do marido e dos dois filhos. Pouco depois da chegada, o marido precisa viajar a trabalho, deixando-a sozinha para enfrentar a adaptação à nova cidade. Enquanto tenta reconstruir sua identidade e entender os rumos que sua vida tomou, o adolescente André (Théo Medon, Fé Para o Impossível) vive as descobertas do primeiro amor e começa a perceber as rachaduras no casamento dos pais. Já o pequeno Dudu (Lorenzo Mello) transforma o estranhamento da mudança em um universo de fantasia, encontrando nas amizades e na imaginação uma maneira de tornar o desconhecido um pouco mais acolhedor.
A maior qualidade de Pequenas Criaturas está justamente na recusa em seguir a cartilha do drama convencional. Anne Pinheiro Guimarães não conduz sua narrativa em direção a um grande clímax, nem parece interessada em criar explosões emocionais para prender a atenção do espectador. Seu cinema nasce da observação, dos silêncios e daquilo que permanece nas entrelinhas. Essa delicadeza exige um espectador disposto a desacelerar, mas recompensa justamente por confiar que pequenas transformações também carregam enorme peso dramático.
Embora Carolina Dieckmmann entregue uma atuação precisa e contida como a mãe Helena, são as crianças que roubam a cena. Théo Medon e Lorenzo Mello encontram uma naturalidade rara para traduzir as inseguranças e descobertas de suas respectivas fases da vida, sem recorrer a exageros. Dessa forma, Pequenas Criaturas funciona como uma história de amadurecimento em três idades diferentes, e essa estrutura faz com que mãe, adolescente e criança compartilhem a narrativa sem competir entre si. Ao final, é impossível não perceber como cada um deles atravessa mudanças silenciosas, mas profundas.
Também impressiona o cuidado estético da produção. A fotografia de Pablo Baião envolve Brasília em tons suaves e melancólicos, enquanto a direção de arte de Claudia Andrade recria a década de 1980 com riqueza de detalhes, sem cair na armadilha da nostalgia decorativa. Cada cenário, objeto e composição de Thalita Travaglioni reforçam a sensação de memória, como se estivéssemos folheando um álbum de lembranças que nunca existiu exatamente daquela forma, mas que parece familiar.
Essa combinação entre fotografia, cores e design de produção faz de Pequenas Criaturas um filme visualmente elegante, cuja beleza está menos no impacto e mais na permanência. Não por acaso, a direção de arte foi premiada no Festival do Rio de 2025, e o reconhecimento faz todo sentido diante da precisão com que o filme transforma seus espaços em parte essencial da narrativa.
Em suma, Pequenas Criaturas confirma que algumas histórias não precisam de grandes acontecimentos para emocionar. Em contraste com obras recentes que revisitaram esse mesmo período histórico por meio do suspense ou do melodrama, Anne Pinheiro Guimarães prefere observar os ecos silenciosos da redemocratização dentro de uma família comum. O resultado é um filme delicado, contemplativo e profundamente humano, que encontra beleza justamente nas ausências, nos recomeços e nos pequenos gestos que, quase sempre sem percebermos, acabam definindo quem somos.
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