Cinema / ENTREVISTA

Lin-Manuel Miranda relembra trabalho em Moana: “Realização de um sonho”

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, parceira de CineBuzz, o compositor revelou como foi trabalhar na animação, ainda no início da carreira, e retornar para uma última despedida, mais de dez anos depois

Lin-Manuel Miranda relembra trabalho em Moana: "Realização de um sonho" (Dimitrios Kambouris/WireImage)

Há pouco mais de dez anos, o nome de Lin-Manuel Miranda não soava como hoje. Então ator e compositor , ele também não era nenhum zé-ninguém: tinha um pequeno musical chamado In the Heights, em que contava a história de Washington Heights, um bairro novaiorquino formado por latinos em busca do “sonho americano”.

Indicado a 13 categorias no Tony Awards, maior prêmio do teatro musical, e vencedor de quatro delas, incluindo a de Melhor Musical, a obra colocou o nome de Miranda — filho de pais port0-riquenhos e um sonhador, assim como os seus personagens — no mapa e, anos depois, em rota para ilha de Motunui, onde encararia o seu maior desafio até então: escrever para quem o inspirou a se tornar quem é.

“Comecei realmente a me apaixonar por musicais não apenas por meio dos álbuns com as trilhas sonoras que meus pais traziam para casa quando eu era criança, mas também ao assistir a A Pequena Sereia quando tinha nove anos e ficar maravilhado”, relembra em entrevista à Rolling Stone Brasil, parceira de CineBuzz. “Eu estava na idade perfeita para a segunda Era de Ouro da Disney, com A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin e Tarzan (sobre o qual não falamos o suficiente como cultura, embora o [compositor] Phil Collins tenha feito um trabalho incrível nele). Eu cresci com essas obras. Então, fazer parte desse legado foi a realização de um sonho.”

Lin-Manuel Miranda com Auli’i Cravalho e Dwayne Johnson na estreia de Moana, em 2016 (Jesse Grant/Getty Images for Disney)

C0mo se escrever o próximo grande musical da Disney não fosse desafiador o suficiente, Miranda se viu frente a frente com mais um obstáculo. Moana contaria a história de uma jovem destemida em um missão para salvar o seu povo e a ilha Motunui, inspirada na região da Polinésia e as suas diversas ilhas, o que obrigaria o compositor a sair de sua zona de conforto e mergulhar de cabeça em uma nova cultura.

“Eu sabia que teria de fazer muita pesquisa. Aquela era uma parte do mundo que eu desconhecia. [Mas] o que me deixou mais tranquilo foi saber que já havia outros dois compositores incríveis no projeto”, conta. Mark Mancina, que trabalhou em O Rei Leão, compôs a trilha sonora de Velocidade Máxima — um compositor de cinema extremamente experiente. E Opetaia [Foa’i], que representa tão lindamente esta parte do mundo com sua banda Te Vaka, cria músicas que são autênticas a essa região. Então, eu sabia que, nós três juntos, faríamos uma boa representação.”

Com a ajuda dos colegas, Miranda esmiuçou a cultura polinésia para entregar a homenagem em seus mínimos detalhes, como em “You’re Welcome” (“De Nada”), cantada pelo semideus Maui, vivido por Dwayne Johnson (The Smashing Machine: Coração de Lutador). “Toda a letra se baseia em mitos reais sobre Maui, explica. “Há, por exemplo, o mito de Maui descobrindo o fogo e levando-o aos humanos, e o mito de Maui criando os coqueiros. Tudo isso é fruto de pesquisa. Você faz toda essa pesquisa, assimila o conteúdo e o transforma em uma música cativante para o The Rock. É sempre essa mistura de pesquisa e empatia.”

Para o artista, o fato de a Disney levar a representatividade a sério foi um dos pontos positivos na experiência. “Eles sabem que, quando fazem um filme ambientado em uma determinada parte do mundo, essa obra se tornará a maior representação daquela região para o público global. Por isso, sempre existe um comitê cultural, ou grupo de consultoria cultural, envolvido em todo o processo, questionando: ‘Estamos honrando este mundo? Vocês se sentem representados? A representação é fiel?’ E Opetaia foi a nossa versão interna disso”, celebra Miranda que, posteriormente, trabalhou em Encanto, enraizado na Colômbia, e o remake de A Pequena Sereia, inspirado pela cultura caribenha.

“Vou dar um exemplo bem engraçado. Saíram os primeiros desenhos do Maui. Ele era careca. Careca no estilo do The Rock. E o conselho cultural disse: ‘Vocês não podem fazer isso’. O Maui tem um cabelo incrível e poderoso, e a sua [força vital] mana vem do cabelo. Então, ele precisava ter cabelo”, relembra. “Aí, avançando no tempo até o lançamento do trailer, todo mundo ficou tipo: ‘Uau, o The Rock tem cabelo’. E eu pensava: “É, ele tem que ter cabelo. Ele não é o The Rock. Ele é o Maui.'”

Dez anos depois, agora autor de Hamilton, um dos musicais mais premiados e celebrados da última década; um novo musical (Warriors, inspirado no longa Warriors: Os Selvagens da Noite, de 1979) e um filme (Octet, com Amanda Seyfried, Rachel Zegler e Jonathan Groff) em produção; e a uma estatueta de ouro do Oscar para entrar para o restrito grupos de vencedores EGOT, Miranda retorna ao universo de Moana para uma despedida, com a inédita “Along the Way”, que embala os créditos do live-action inspirado na animação de 2016.

Diretor da novidade, Thomas Kail, que trabalhou com Miranda em In the Heights e Hamilton, foi quem sugeriu a nova música, com a intenção de promover uma transição entre passado e futuro, reunindo Auli’i Cravalho, voz de Moana na animação, e Catherine Laga’aia, que estreia nas telonas protagonizando o live-action, em um dueto.

“Não queríamos incluir uma música só por incluir. E então veio a ideia do Tommy. Ele disse: ‘Olha, temos a Auli’i. Ela é produtora do filme. Temos aqui a oportunidade de promover uma passagem de bastão entre as duas’. Assim que ele falou isso, eu disse: ‘Cala a boca. Para de falar comigo. Vou te ligar daqui a uma semana’, porque aquela era a ideia”, relembra.

“Era exatamente a ideia que eu esperava, pois você está sempre em busca de algo que mais nada pode oferecer, algo que, por exemplo, não daria para fazer com um dueto entre duas Moanas nos filmes de animação. Mas aqui temos essa oportunidade em que a Auli’i pode ser a voz de uma ancestral e, na vida real, é a única outra pessoa que sabe o que a Catherine está prestes a vivenciar como estrela desse enorme musical da Disney”, completa Miranda. “Então, criar essa conversa, que funciona tanto como uma canção narrativa quanto em um nível de metalinguagem, de uma Moana para outra dizendo ‘você dá conta’, foi muito divertido de escrever.”

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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.