Todo Mundo em Pânico tenta ser provocativo, mas acaba se emburrecendo no processo
Longa ataca pessoas transgênero e travestis, mas não tem culhão para levar a "piada" até o fim da linha

Há mais de uma década longe das telonas, Todo Mundo em Pânico está de volta aos cinemas a partir desta quinta-feira, dia 4 de junho, recuperando o humor que conquistou uma geração no início dos anos 2000. Novamente comandada pelos irmãos Wayans, que ficaram de fora dos últimos três filmes, a novidade prova que é o maior trunfo da franquia sempre esteve na visão de seus criadores, como você pode ler na crítica de Rolling Stone Brasil, parceira de CineBuzz, clicando aqui.
Porém, desde o princípio, Marlon e Shawn Wayans tentam vender o novo capítulo de Todo Mundo em Pânico como um filme contra a “cultura woke”. “Estamos tentando trazer o riso de volta. A única maneira de fazer isso é cancelar a cultura do cancelamento”, declarou Marlon ao Entertainment Weekly em março deste ano. E, de fato, o filme faz isso, mas com uma pobreza criativa tão extrema que o torna muito menos revolucionário do que pretendia ser.
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Primeiramente, sinto lhe informar, mas Todo Mundo em Pânico sempre foi “woke”. As piadas sobre racismo sempre estiveram presentes e, caso você não tenha percebido, elas estão embebidas de críticas veladas, que vão da esteriotipação de pessoas negras à brutalidade policial, passando por tantos outros temas que renderiam teses de doutorado sobre o assunto. E elas funcionam, na maioria das vezes, porque foram escritas por dois homens negros, que conhecem aquela realidade em primeira mão.
Porém, quando decide voltar a sua “zoeira” para pessoas trans, a piada se perde e se transforma em um ataque sem fundamento. Apesar de transformarem esse grupo em um de seus principais alvos de chacota — dentre muitos, vale dizer, já que, nesse sentido, o filme é bastante democrático e atira para todos os lados —, os Wayans não vão além de um deboche raso sobre gênero, pronomes e relações homoafetivas, que funcionam apenas como uma forma de alimentar um público que se recusa a evoluir e clama por uma validação para a sua própria estupidez.
No Brasil, que há mais de 15 anos consecutivos lidera o ranking de países que mais matam pessoas transgênero e travestis, segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Todo Mundo em Pânico vai cair como uma luva — e o primeiro sinal desse “sucesso” veio antes mesmo do filme chegar aos cinemas.
Quando a Paramount Pictures Brasil cometeu o “gravíssimo” erro de traduzir “I’m woke so I’m broke” para “Se eu lacro, eu lucro”, brasileiros acionaram os irmãos Wayans nas redes sociais para dizer que a distribuidora nacional estava tentando arruinar o filme, o que levou a Paramount a relançar o pôster corrigido com a frase “Eu lacro, não lucro”, e se desculpar: “A gente achou que tava arrasando no inglês, e deixamos todo mundo em pânico!”, brincou.
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O que Todo Mundo em Pânico não percebe, no entanto, é que, na ânsia de agradar um público conformado com a própria boçalidade, ele se emburrece no processo. O sexto filme da franquia é bom e funciona muito bem ao parodiar produções como Corra!, A Substância, A Hora do Mal, Premonição, M3GAN, John Wick e até Guerreiras do K-Pop, além dos clássicos Pânico e Halloween, com piadas verdadeiramente inteligentes e divertidas, mas se rebaixa para agradar quem só tá ali para continuar destilando ódio gratuitamente com o aval de seus ídolos.
E o pior de tudo é que o próprio Todo Mundo em Pânico é muito woke para levar a “piada” com pessoas transgênero até o fim. Na hora de escalar Jess, que se identifica como um homem trans na história, os irmãos Wayans escolheram Benny Zielke, uma pessoa trans não-binária, que lista os seus pronomes elu/delu em suas redes sociais. Por quê? Se a ideia era atacar pessoas trans sem dó, por que não escapar totalmente da “agenda woke” e escalar um ator ou uma atriz cisgênero? Afinal, quem lacra, não lucra, certo?
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Não me entenda mal, leitor: ninguém aqui quer tirar o direito de ninguém de ser ignorante — muito menos o de uma franquia tão adorada quanto Todo Mundo em Pânico. No máximo, este texto serve, com toda a minha humildade, como um chamado aos irmãos Wayans à realidade: caras, vocês sabem fazer comédia e não precisam se rebaixar para isso!
Tirando uma ou outra piada, como a da cinebiografia de Michael Jackson, as paródias com cinema e cultura pop funcionam bem. Os conflitos geracionais entre os antigos e os novos personagens também rendem boas piadas. E, no fim das contas, é isso que importa.
Não precisa lacrar, mas dá para fazer rir sem ofender. Já são 26 anos desde que o primeiro Todo Mundo em Pânico chegou aos cinemas e, com certeza, nós conseguimos ser melhor do que já fomos — é só tentar um pouco.
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