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Terror e drama se encontram no conceitual e melancólico Presença | #CineBuzzIndica

O novo longa de Steven Soderbergh conta a história de uma família que se muda para uma casa e tem que lidar com uma entidade

ANGELO CORDEIRO | @OANGELOCINEFILO
por ANGELO CORDEIRO | @OANGELOCINEFILO

Publicado em 04/04/2025, às 16h00

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Terror e drama se encontram no conceitual e melancólico Presença - Divulgação/Diamond Films
Terror e drama se encontram no conceitual e melancólico Presença - Divulgação/Diamond Films

Uma das principais marcas de Steven Soderbergh (Onze Homens e um Segredo) é sua constante experimentação. Em O Código Preto, seu longa mais recente, ele disfarça um drama de casamento sob uma fachada de um thriller de espionagem. Agora, com Presença, seu mais novo lançamento, o cineasta nos apresenta uma proposta igualmente inusitada. Vendido inicialmente como um terror, o longa vai além, usando o gênero como pontapé inicial para explorar de maneira profunda e conceitual as dinâmicas familiares, os conflitos internos e as relações mal resolvidas que se escondem por trás de uma aparente normalidade.

A trama gira em torno de um casal (Lucy Liu, de As Panteras, e Chris Sullivan, de This is Us) e seus dois filhos (Callina Liang, de Bad Genius, e Eddy Maday) que se mudam para uma nova casa, onde eventos sobrenaturais começam a afetar sua rotina diária, sugerindo uma presença fantasmagórica nos ambientes. No entanto, Soderbergh faz questão de que a verdadeira "presença" não seja apenas um fantasma tradicional, mas também os fantasmas internos dos personagens — suas dores e traumas. O diretor cria uma relação íntima entre público e personagens, especialmente com a filha da família, Chloe (Liang), que carrega o maior dilema emocional da narrativa: o luto pela perda de uma grande amiga.

O que Soderbergh faz de maneira notável aqui é usar o terror como ponto de partida, mas rapidamente transformar o filme em um estudo melancólico e intimista no qual seu experimento é o maior diferencial: acompanhamos tudo em primeira pessoa, a partir do olhar da tal presença, em longas sequências sem cortes. Ao invés de se apoiar em sustos fáceis ou em um vilão sobrenatural, ele nos apresenta à vida cotidiana de uma família, suas dores, frustrações e a maneira como os fantasmas do passado continuam a assombrá-los. A presença que se manifesta na casa é tanto literal quanto metafórica: é a própria fragilidade emocional dos personagens que, como um espectro, se infiltra nas suas interações e na estrutura da casa.

Cada membro da família Payne possui seus próprios conflitos, e enquanto alguns são mais desenvolvidos do que outros, a complexidade dos dramas internos de cada um se torna evidente ao longo do desenrolar do enredo. Embora o diretor não consiga explorar todos esses aspectos de forma igualmente profunda, ele acerta ao criar o retrato de uma família fragilizada, cujos membros estão à deriva em suas próprias questões não resolvidas.

O terror, portanto, se torna apenas a primeira camada da trama. A verdadeira aflição vem da forma como Soderbergh constrói as relações e coloca seus personagens à mercê de suas próprias inseguranças e angústias. A casa, em si, funciona quase como um personagem, um reflexo da mente daqueles que a habitam. Dessa forma, Soderbergh nos faz questionar o que realmente (n)os assombra: se os fantasmas do passado ou as emoções não ditas que (n)os tornam prisioneiros da própria história.

A ideia de usar o terror como pano de fundo para uma história mais melancólica é uma escolha ousada de Soderbergh, que se recusa a seguir as convenções do gênero. Ao invés de se apoiar em clichês típicos do terror – não espere sustos e sons altos que te farão pular da poltrona –, ele utiliza o sobrenatural para explorar o que está escondido dentro de cada um dos personagens. As manifestações da “presença” tornam-se gatilhos para o reflexo das emoções não ditas, das tensões à flor da pele e dos sentimentos de culpa e arrependimento.

A casa, filmada com sua arquitetura imponente e fria a partir de uma câmera grande angular – que amplia nosso campo de visão –, acaba funcionando como um personagem adicional, amplificando o isolamento e a solidão que permeiam os moradores. A partir dessa escolha de formato de filmagem, Soderbergh tende a fazer com que o público se veja não só no ponto de vista da entidade, mas também lançando um olhar voyeurístico para aquela dinâmica familiar de maneira incômoda: é como se fôssemos intrusos naquele âmago, mas, ao mesmo tempo, a partir da observação do isolamento de cada um deles e os perigos que correm, nos sintamos necessários para evitar que o pior não aconteça.

Em suma, Presençaconsegue se destacar como uma obra reflexiva sobre o luto, a dor e a maneira como os fantasmas – seja de eventos passados ou de experiências não resolvidas – continuam a nos assombrar. O filme não é sobre o medo de um ser sobrenatural, mas sobre o medo de confrontar as emoções mais profundas e dolorosas que nos definem. Ao explorar esses temas de forma sutil e introspectiva, Presença oferece uma experiência cinematográfica inquietante e dramática. No final, a tal "presença" é muito mais do que uma entidade espectral — é a sombra de quem somos e do que não conseguimos deixar para trás.

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